Solitude
© intercalado
“E então ela riu, e era o riso mais triste que eu já tinha visto.”
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2974

Foram 2.974 dias. 98 meses. 8 anos. Se nosso relacionamento fosse uma criança, ela já estaria na escola, no quarto ano, talvez já fosse um fã de homem aranha e estivesse brigando pra passar uns minutos a mais jogando no celular. 

Os primeiros anos foram de frio na barriga, distância e saudade. Se aquilo que vem fácil vai fácil, nós já podemos esperar que a ida vai ser tão difícil quanto a vinda. Contra tudo e contra todos, nós provamos que sim, o amor poderia resistir. 

Entre tantas cartas, gestos, lembranças e galhos secos que pra gente tinham todo o significado do mundo, nós fomos lutando e resistindo, tudo pra conseguir 5 horas juntos nos finais de semana.

Nós dois tinhamos problemas, e sempre conseguimos buscar o apoio um no outro, e mesmo sem muita noção de como ajudar a gente fazia dar certo. 

Junto com a idade vieram as responsabilidades, a vida adulta e todas essas coisas que tiram o sono das pessoas. E conforme o tempo passava as coisas davam errado, e acumulavam, e davam mais errado, e acumulavam de novo. 

Nosso amor foi muito bom, foi muito bonito, tenho certeza que pode até ter servido de exemplo pra muita gente. E nos fez muito bem, até que não fez mais. 

O processo de entender e aceitar que aquilo que fez bem já não faz mais tão bem é difícil, é longo e doloroso, tem muita dúvida, incerteza, arrependimento, é pura confusão e agonia. Mas em algum momento o coração diz pra gente que não dá mais. E a gente não tem mais tanta certeza quanto tinha antes. Começa a se questionar se é isso mesmo, se quer isso, se vale a pena. Se aquilo que um dia fez tão bem agora faz mal. Começa a se perguntar como seria. Faz a gente martelar na cabeça por semanas, meses, até tomar uma decisão. 

Você me pediu pra partir e eu não quis, eu não aceitei, eu achei injusto. Eu queria fazer parte. Você pediu de novo e eu não entendi. Eu chorei, eu me questionei de todas as formas possíveis. Eu revivi cada momento e esgotei todas as possibilidades. Eu pensei tanto e me esgotei tanto, até que entendi. Eu olhei para trás e vi as coisas que não via antes. Eu entendi que as vezes pra subir a gente precisa voar sozinho. E pro outro subir a gente precisa soltar a mão e deixar ir.

A gente existe em cada esquina dessa cidade, e daquela outra também. Em cada corredor de mercado. Em cada banco de parque. Em cada lancheria e conveniência de posto de combustível. Em cada corredor de shopping e em cada quilômetro daquela ciclovia. Em cada barraquinha de feira. Em cada banco de ônibus e naquele deck naquela cidadezinha do interior. Naquela rodoviária e naqueles elevadores, e em cada saguão de aeroporto onde nós pisamos. A cada passo que a gente deu vai sempre existir um pouco de nós. E talvez um dia ainda vamos passar por cada um desses lugares e sorrir lembrando de tudo de bom que aconteceu. 

Hoje dói, e amanhã ainda vai doer. Até não doer mais. 

Foram 8 anos ótimos anos, mas que acabaram. Sem porta batendo, sem brigas e com um sentimento de boa sorte.

Espero que você consiga encontrar tudo que está procurando. Espero que descubra tudo que hoje é dúvida e espero que aprenda o máximo possível nessa jornada. 

É difícil entender e aceitar que não existe mais espaço naquele lugar que você ocupou por tanto tempo, mas tão importante quanto isso é saber a hora de partir. 

Eu desejo toda a sorte do mundo pra você. Sinto muito não ter conseguido acompanhar você nessa caminhada inteira, mas sou muito grato por todo o caminho que percorremos juntos. Tenho certeza que você vai conseguir atingir tudo que busca e que vai encontrar alguém que mereça ocupar esse espaço.

Eu tenho um longo caminho pra seguir também, e vou ser eternamente grato por tudo que você fez por mim e por tudo que você foi em todos esses anos. Nenhum de nós conseguiria ter chegado até aqui sozinho. E acredito que tudo que aconteceu nesse tempo, todos os erros e todos os acertos vão nos ensinar bastante.

Vai ter dias em que a saudade vai bater e a gente vai querer ligar, vai querer mandar mensagem, até dar uma passadinha na rua e ver se a luz está acesa, vai se questionar se o outro tá comendo certinho, se tá tomando cuidado quando anda na rua, e vai precisar largar o celular e lembrar que as vezes a saudade é uma companhia melhor que a dor. 

Muito obrigado por tudo. 

Fazem 4 anos que eu não te escrevo. Muita coisa aconteceu em 4 anos. Hoje eu voltei aqui pra falar disso. Em 4 anos nos crescemos juntos. Muito. Em 4 anos nós viajamos. Conhecemos cidades. Conhecemos pessoas. Adotamos gatos, cachorros, porco da índia, hamster, você teve até uma pomba. Nós viajamos 8 horas para assistir uma partida de futsal. Em 4 anos eu consegui meu computador, eu montei até uma mesa, e não precisei mais esperar meu irmão ir trabalhar para fazer uma coisa que eu gostava. Em 4anos eu ainda não aprendi a tocar guitarra como eu queria. Em 4 anos você descobriu uma aquarela e definiu um rumo totalmente novo pra sua vida, pra sua profissão, e que tem grande parte sobre onde você está hoje. Em 4 anos eu me formei e aprendi a programar. Nós tivemos nosso primeiro cartão de crédito, nosso primeiro emprego. Segundo, e até terceiro. Nós fomos morar juntos e aprendemos muito um sobre o outro. Nós discutimos, e nos amamos, e discutimos de novo, aprendemos coisas um sobre o outro que nem imaginávamos. Nós saímos de perto da família e viramos uma. Mudamos de cidade, mudamos de E S T A D O. Entramos em um avião cheio de incertezas e sem saber se iria dar certo, mas sempre acreditando lá no fundo que aquilo era o melhor. Tivemos nosso primeiro ratinho. Nosso primeiro fogão. Nossa primeira TV. Nossa primeira casa. Nossa. Um lugar só nosso do jeito que a gente quer que seja. Em 4 anos nós viramos nós. 4 anos atrás eu escrevi sobre como os adultos ficam chatos quando crescem. Com as vidas chatas. Acordando, indo trabalhar, voltando e esperando até o próximo dia para repetir o ciclo, chato, né? Eu virei um. Exatamente o que eu criticava. Fazem 4 anos que eu finjo, eu finjo que eu não tenho depressão e que minhas inseguranças sobre mim e sobre a vida toda não é a causa da maioria dos nossos problemas. E eu também finjo que você também não deve ter. Fazem 4 anos que nos jogamos a culpa nos outros. Nas outras coisas. E isso nos impede de perceber que o problema somos nós. E que ele vem de dentro. Não de mim, não de você, de nós. E que ainda não estamos dando o nosso melhor, e que quando acharmos que estamos no máximo, ainda dá pra dar mais um pouquinho. Em 4 anos uma coisa não mudou. Eu ainda te amo demais, eu ainda espero ansioso você chegar, eu ainda fico muito feliz quando você chega. Eu ainda amo deitar no seu peito e sentir a sua respiração. Eu ainda tento me desligar e desligar você do mundo esperando que a gente se conecte do modo que fazíamos antigamente. E eu falho, e eu fico muito frustado. E eu não choro, e eu queria que você entendesse que eu não preciso chorar para estar muito magoado. Mas eu fico, toda vez que eu falho. E eu falho muito. E eu tento melhorar, e eu tento consertar, e não funciona, e eu falho de novo, e eu fico sem entender de novo. E se as vezes eu não converso, se as vezes eu não tento, é porque eu tenho medo de falhar mais uma vez. E cada vez que eu te chamo e você não ao me responde, eu falhei. E isso dói demais. E cada vez que você sorri de volta, eu encho. Eu volto. Eu vivo. Eu lembro o porquê disso tudo. Eu voltei 4 anos depois porque eu quero poder falar. Eu também queria que o meu não fosse ouvido, e entendido. Eu queria poder querer. Ou não querer. Sem brigas, sem discussão. Sem certo ou errado. Sem razão. Eu quero poder acordar no sábado com um bom dia, e com um sorriso que me faz ter certeza de que tudo isso tem um propósito. E que me lembre de todo o amor que pode existir no mundo. 4 anos atrás eu disse que os adultos são chatos porque eles já entenderam a vida, e é exatamente o contrário, eles estão mais confusos ainda. Eu voltei 4 anos depois pra dizer que eu te amo mais do que tudo, e que cada minuto assim dói. E eu sei que dói em você também. E eu queria que você pensasse. Pensasse mesmo. A gente tá no caminho certo? Cada ação que estamos tomando é pro nosso bem? Cada uma mesmo, cada pedaço do dia, cada palavra, cada decisão. Eu ainda existo, meu amor. Eu posso estar apagado e pode fazer tempo pra caramba que você não me ouve. Mas eu tô aqui. É só chamar. Eu te amo, eu te amo mais do que tudo nesse mundo. Eu ainda sonho com você e eu quero passar cada minuto da minha vida ao seu lado. Mas eu preciso ter certeza de que você também sente isso. E que, se algum da você não sentir, você vai ser o mais sincera possível. Com todo o amor do mundo, pra você

E F Ê M E R O

externalizo:

Ninguém morre por amar outra pessoa;
Ninguém morre porque outra pessoa fez algo ruim.
A gente sente, sofre, sangra e segue.
Tudo é temporário, inclusive suas dores.

murmurios:

esperando que alguém a salvasse,

morreu de velhice.

O amor aparece quando menos se espera e de onde menos se imagina. Você passa uma festa inteira hipnotizado por alguém que nem lhe enxerga, e mal repara em outro alguém que só tem olhos pra você. Ou então fica arrasado porque não foi pra praia no final de semana. Toda a sua turma está lá, azarando-se uns aos outros. Sentindo-se um ET perdido na cidade grande, você busca refúgio numa locadora de vídeo, sem prever que ali mesmo, na locadora, irá encontrar a pessoa que dará sentido a sua vida. O amor é que nem tesourinha de unhas, nunca está onde a gente pensa.”
Martha Medeiros.  (via roteirismo)
Você cresce. Suas roupas ficam menores, as ofensas já não acertam na mesma intensidade. Você expande seu campo de visão, e enxerga tudo o que não passava de um grande nada. Os dias passam, problemas aumentam, e o tempo se reduz. Responsabilidades, contas, horários, prazos, preocupações, e finalmente, a tão sonhada independência. Você cresce, as piadas tornam-se cansativas, as histórias entediantes, as pessoas irritantes, os amigos antigos vão sumindo aos poucos por estarem crescendo também. Você cresce, e ironicamente se sente menor, a rotina te aperta, e saudade te engole. Todo mundo cresce, e a maturidade tem um preço, quem diria que ser livre pode custar a liberdade? Te obrigam a voar, enquanto seguram suas asas. Amadureça, mas não cresça antes do tempo. Aproveite sua juventude, e acredite, crescer tem lá suas desvantagens.”
Sean Wilhelm.   (via inicializador)

eucosmos:

Ninguém pergunta ao suicida

Porque morreu.
Por quem morreu.
Por qual motivo morreu.

Se a morte do corpo se deu a um acidente planejado.
Se a vida que lhe foi forçada
se tornou agradável
ou um grande peso morto
pra um corpo morto.

Ninguém pergunta se tá tudo bem.

Ninguém pergunta ao morto
o que te fazia bem e se o que não fazia bem,feria.
Ninguém pergunta ao morto
se um dia ele já foi vivo.

O morto morre e é esquecido.

S.

flores-e-haicais:

você não vai saber das suturas e cortes. nem das pequenas coisas como um prato novo que cozinhei no domingo nem as grandes coisas como a primeira cirurgia que irei fazer.

você não soube das crises de bronquite. e que senti falta de ar na escada do metrô enquanto milhares de pessoas passavam e nada faziam. eu era uma desconhecida - nada mudarei em suas vidas.

você não saberá dos amigos que perdi porque não sei como retribuir e ser presente. não sei dividir as dores e por isso sumo. eles nem sabem de você. assim como eu.

você não vai saber que compramos uma geladeira nova e reformamos a cozinha. e que de noite eu tenho dormido com a minha mãe porque é o único momento do dia que posso cuida-la ou ter a sensação de.

você não soube que fui assaltada na porta de casa e que agora não ando sozinha. você não sabe dos traumas e talvez seja um.

eu falo de você ao meu analista e o carteiro que vem as quintas e a minha chefe que finge uma certa preocupação e a minha tia que tem medo do meu peso baixo e meu médico que receitou mais umas gotinhas ao fim do dia.

você continua não sabendo de mim e a vida não parece ter sido alterada. e mesmo assim eu ainda insisto.

Light me up a Cigarette
And put it in my mouth
You’re the only one that wants me to die”
I’m not yours anymore
EU NÃO ERA ASSIM
(Para Christine, cuja biografia ando escrevendo e por quem acabei me apaixonando).
Quando você me conheceu, eu já havia morrido. Às vezes, me questiono se as coisas teriam sido diferentes se eu ainda estivesse viva naquele tempo.
Não se sabe ao certo a data da minha morte; fui morrendo aos poucos, discreta, sem escândalo – muito quieta, a meu modo típico. Inverso ao que dizem, não sangrou nem teve hospital, não teve hospício, não teve marcha fúnebre; continuou ali o corpo intacto, velando ele próprio seu mundinho. Mantive o mesmo sorriso de cumprimentar as gentes e os atos mecânicos da minha gentileza: segurar a porta aos vizinhos, dar bom dia aos que cruzam nos corredores, pedir desculpas ao esbarrar num corpo. Fiz misericórdia e caridade.
Você teria gostado de quem eu fui em vida. Enérgica e aventureira, desbravei mares bravios com pranchas de surf e escalei montanhas sob tempestades iracundas. Eu não era assim cansada, nunca me faltava ânimo para rasgar o cotidiano: queria de tudo o sumo e o sangue.
Eu não era assim cadáver, ossada petrificada, dissolvida em meio à neblina.
Andava demais naqueles tempos vivos; tinha energia para andar durante um dia inteiro, procurando as barreiras das cidades. Naqueles tempos, achávamos perigoso andar nas ruas; mas era apenas perigosinho. Agora é perigoso – não fosse eu já morta.
Morta não há nada de tão perigoso. Por sorte, rareiam os necrófilos – não os tenho encontrado enquanto rastejo junto ao meio-fio. Roubar de mim o quê? Entre a bolsa e a vida, entrego a vida – e, quando me abrirem o peito à procura, verão que não a possuo. Vou rir, escarninho, debochada, eu não perdi a graça. De qualquer forma, não carrego bolsa.
Nos bolsos, balas do troco, centavos com que pagar cafés e transportes. Talvez um pingente achado na esquina, brilhando a biju. Também sou quinquilharia, me comovo.
Não existo virtual no celular, se sua definição for mesmo aparelho de intercomunicação autônoma de sistema central.
Porque deixo os contatos na casa onde um dia vivi, todos eles, e só podem me achar, talvez, por médiuns e psicografias.
Mas isso é besteira, você sabe. Eu teria te explicado que, depois da vida, só tem mais vida: coisa nenhuma.
Ponha a mão sobre meus olhos, feche meus olhos, me deixe sumir – criança que se esconde atrás das palmas e, por não enxergar, pensa que desaparece também para o mundo. Pague carpideiras mercenárias com lencinhos amarelados de muco para prantearem ao meu leito: afetos falsos e fingidos, assim morro, paradoxo singelo, ao vivo.”
Gabriela Richinitti
You’re making love now to the lady down the road. No I don’t. I don’t want to know”
Santa Monica Dream 
Essa semana eu tive um encontro com a coisa mais torturadora que eu já conheci até agora. Eu, a pessoa mais emocionalmente instável que já conheci, precisou ser a pessoa forte para alguém. Quando você saiu pra ir pro hospital eu tentei ir fazer alguma outra coisa pra tentar ficar o mínimo preocupado possível. Quando seu pai chegou eu estava lendo sobre o sistema de arquivos de pendrives. Eu abri a porta e ele disse que era pra eu ir com ele. Eu não conseguia amarrar meus tênis. Eu cheguei, mostrei sua identidade para o guarda, para ver se ele deixava eu entrar, ele abriu a porta e eu entrei. Eu 5 segundos eu precisei apertar o botão de emergência que me faz desligar tudo. Durante 2 horas eu segurei sua mão enquanto você chorava de dor, e ao mesmo tempo em e sentia que as minhas mãos estavam amarradas nas minhas costas. E tudo que eu podia fazer era segurar a sua e tentar dizer que ia ficar tudo bem. Quando o médico disse que você teria que passar a noite ali, eu não senti nada, eu não senti nada a partir do momento em que eu entrei por aquela porta, pelo menos era isso que eu pensava. Você estava com medo, e eu dizia que era melhor lá, que ia ficar tudo bem. Eu inventei tanta coisa naquela hora pra tentar te deixar tranquila que eu poderia ganhar um diploma de medicina. Você me disse que estava com muito medo, e eu sabia disso. Eu fingi que eu não estava, afinal, eu desliguei tudo a partir daquela porta. Eu saí e fui para casa. Eu cheguei, tirei meu tênis e deitei. Eu não dormi. Eu levantei 7:30, troquei de roupa e sentei no sofá. Eu não sei por quanto tempo. Você me disse que ia voltar para casa. Eu não entendi, mas fiquei feliz, um pouco aliviado, digo “pouco” porque não entendi o porquê de você estar voltando agora. Eu fui almoçar com você e pareci que algo ainda estava errado. Quando você saiu para tomar o remédio e voltou me dizendo que não conseguia eu sabia que ia começar de novo. E começou. Mais uma vez eu desliguei tudo. Você sabe como acabou. Eu cheguei em casa e tomei meu remédio, tentei comer alguma coisa e deitei. Pra cada parede que eu olhava eu tinha a imagem de você chorando e me dizendo que estava com medo, e eu sem poder fazer absolutamente nada. Quando você disse que queria ir para a praia pra descansar eu gostei da ideia, eu sabia qual era seu problema, e eu queria que você tirasse seu tempo pra ficar longe de tudo isso. Eu ainda tô tentando deitar pra dormir e não lembrar. Meu coração acelera. Minha barriga dói. Eu fico tonto. Eu não consigo mais desligar as coisas. Com certeza foi pior para você, mas eu acho que também preciso da minha praia. Você foi mas eu fiquei aqui lembrando de tudo que aconteceu. Eu dei a ideia de você não usar a internet e aproveitar aí porque era o que eu queria fazer também. Até abrir minha galeria fazia eu lembrar dessas coisas. Eu ainda queria saber como você estava e queria conversar com você, mas eu queria que o foco dessa viagem para você fosse só você. Eu preciso desse tempo pra me distrair e tentar tirar aquelas imagens da minha cabeça. Provavelmente em 1 ou 2 dias você volta, não entende errado, por favor, eu to morrendo de saudades, mas eu não vou estar bem pra você sem esse tempo. Eu já te escrevi isso uma vez, eu falei que quando eu não tô bem e eu sei que você tá feliz e se divertindo eu prefiro ficar longe pra não estragar as coisas. E eu prefiro te explicar assim do que mentir que eu tenho que fazer alguma coisa pra sair e não piorar as coisas. Fica bem, por favor. E volta.”
Pouca comida é miséria, comer pouco é educação. Feiura no rosto é apenas feio, feiura na tela é irreverência. Lixo é repugnante, lixo moldado é reciclagem. Mulher nua na rua é prostituta, mulher nua na rua segurando um cartaz é protesto. Velho com vitrola é atrasado, jovem com vinil é estilo. Pobre artista é pichador, rico com tinta é gênio. Baile funk é perda de tempo, balada eletrônica é diversão. Ir sem roupa ao shopping é atentado violento ao pudor, ir sem roupa à praia é naturalismo. Milionário usando chinelas é humilde, humilde com chinela é milionário. Cachorro com coleira é fofo, cachorro sem coleira é vira-lata. Sirene em bairro rico é ambulância, sirene em favela é polícia. Estrondo em dia de jogo são fogos de artifício, estrondo em dia de jogo dentro da comunidade são traficantes. Aluno que cola é esperto, aluno que estuda é otário. Mentira dita muitas vezes é verdade, verdade nunca dita é mentira. Solidão aos dezesseis é drama, solidão aos sessenta é necessidade. Cabelo enrolado é cabelo ruim, cabelo liso com babyliss é sexy. Palmada em filho é disciplina, palmada em aluno é caso de notícia. Modelo gorda é inaceitável, modelo magra é pleonasmo. Macaco é racismo, branquelo é apelido. Seios na televisão é apelação, seios na televisão em fevereiro é carnaval. Foto do pé é cafona, foto do pé com efeito de instagram é vintage. Criança magra é desnutrida, criança obesa é descuido. Menino com amigas é gay, meninas com amigos é oferecida. Homem com várias é inspiração, mulher com vários é mal falada. Adotar um bebê é amor, adotar um adolescente é caridade. Palavrão na rua é baixaria, palavrão na música é alternativo. Verde e amarelo é cafonice, torcer pra seleção é patriotismo. Beijar é bom, beijar dois na mesma festa é segredo, beijar outro é traição, beijar ninguém é ser encalhado. Andar de mãos dadas é fofo, andar da mãos dadas com alguém do mesmo sexo é pouca vergonha. Reclamar do governo é legal, fechar a TV no horário político é rotina. Mandar cartas é velharia, receber cartas é romantismo. Não ter filhos é lamentável, optar por não ter filhos é estilo de vida. Xingamento na cama é ousadia, xingamento na mesa é barraco. Criança loira, bem vestida e sozinha está perdida, criança negra, suja e sozinha é assaltante. A fome é um problema mundial, a fome do outro não é problema meu. Bonita e difícil é atraente, bonita e fácil é vagabunda, feia e difícil é burra, feia e fácil é descartável. Bater em mulher é machismo, mulher bater em homem é engraçado. Católico assassino é banalidade, protestante assassino é hipocrisia. Passear no campo é liberdade, morar no campo é falta de dinheiro. Óculos espelhado é horrível, óculos espelhado de marca é moda. Livro de cinquenta reais é caro, uísque de cinquenta reais é festa. Matar um cachorro é desumano, matar um boi é churrasco. Um assassinato é fatalidade, três mil é estatística. Ser ou não ser é Shakespeare, indecisão é defeito. Acreditar no amor é beleza, acreditar em alienígenas é ilusão. Grito na música é rock’n’roll, grito sem ritmo é falta de argumentos. Loucos só passaram a existir quando a normalidade foi inventada, diferenças só não foram aceitas quando alguém tentou ser diferente. Conceitos não mudam realidades, mas realidades mudam conceitos. Pessoas não são palavras, mas palavras formam pessoas. Se é certo que somos produtos do meio, é certo também que somos somente produtos. Indivíduos são matérias-primas em abundância, mas individualidade é artigo de luxo. Rótulo na embalagem é essencial, rótulo em tudo é apenas uma sociedade.”
Cinzentos.    (via inverbos)

eucosmos:

Ninguém pergunta ao suicida

Porque morreu.
Por quem morreu.
Por qual motivo morreu.

Se a morte do corpo se deu a um acidente planejado.
Se a vida que lhe foi forçada
se tornou agradável
ou um grande peso morto
pra um corpo morto.

Ninguém pergunta se tá tudo bem.

Ninguém pergunta ao morto
o que te fazia bem e se o que não fazia bem,feria.
Ninguém pergunta ao morto
se um dia ele já foi vivo.

O morto morre e é esquecido.

S.